É com muita preocupação que toda a sociedade brasileira foi surpreendida ontem pela notícia acerca da citação do presidente Jair Bolsonaro no processo que investiga a morte da vereadora Marielle Franco. Diante da notícia, é importante entender a sequência de fatos que corroboram para esse entendimento.

Quem foi Marielle Franco e a quem sua luta incomodou:

Marielle era Vereadora do PSOL no Rio de Janeiro, era uma mulher negra, lésbica, favelada e militante, foi eleita, deu voz a segmentos da nossa sociedade que sempre foram invisibilizados e apagados na nossa história.

Como Vereadora denunciou o assassinato da juventude negra nas favelas, denunciou a gravíssima situação dos agentes de segurança pública no RJ e prestou apoio aos familiares de policiais mortos em serviço e com todas as suas forças lutou pela construção de uma sociedade igualitária.

No dia 14 de março de 2018, junto com Anderson Silva, seu motorista, foi covarde e brutalmente assassinada. Qualquer pessoa perder a sua vida é grave, qualquer assassinato deve ser investigado, mas este não foi um assassinato comum. O assassinato de Marielle se pretendia um recado. Um recado para todas aquelas que se indignam e ousam romper o silêncio, um recado para todos aqueles que ousam ocupar um espaço onde impera a exclusão da parcela historicamente oprimida da sociedade.

Sobre as “coincidências” dos algozes de Marielle, a ligação com a milícia e os diversos pontos de contato com o clã Bolsonaro:

Em Março deste ano, Ronnie Lessa, ex policial militar, foi preso como o autor dos disparos que tiraram a vida de Marielle e Anderson, na casa de seu amigo (Alexandre Mota de Souza) foram apreendidos 117 fuzis, a maior apreensão de armas da história do Rio de Janeiro. Durante a apreensão, Alexandre alegou que o dono das caixas era Ronnie Lessa.

Mas oque isso tem a ver com a família Bolsonaro?

Ronnie Lessa é vizinho de Jair Bolsonaro, além disso é conhecido por fazer parte do grupo denominado “Escritório do Crime”.

Esta organização criminosa já teve seus membros homenageados em 2004 e 2005 com moções de louvor, do então deputado Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio. Uma das mais emblemáticas homenagens foi concedida ao policial militar preso pelo possível envolvimento em uma chacina que vitimou quatro jovens no Rio de Janeiro. O ex-policial Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como chefe de milícia, também foi homenageado por Flávio Bolsonaro. A mãe e a mulher do criminoso foram contratadas pelo gabinete de Flávio, quando ele era deputado estadual.

Não é de hoje que Bolsonaro e seus filhos defendem abertamente a atuação das milícias, com falas como a de Jair em 2018, quando diz que  “naquela região onde a milícia é paga, não tem violência” ou mesmo de Flávio em 2007 quando afirma que “a milícia nada mais é do que um conjunto de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia e disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos”. 

A perseguição e tentativa de intimidação à esquerda, e particularmente ao PSOL, também foi algo recorrente no discurso da família Bolsonaro e seus apoiadores. Nas eleições de 2018, dois candidatos do partido de Bolsonaro quebraram uma placa de homenagem à Marielle e posaram sorrindo, junto ao governador eleito Witzel. No mesmo evento, os candidatos falam que vão “DECAPITAR AQUELES VAGABUNDOS DO PSOL”. Flávio Bolsonaro defendeu publicamente a atitude dizendo que a “placa era ilegal”. Já o presidente Jair, sempre se utilizou da sua função como deputado para difundir mentiras sobre o PSOL e seus parlamentares, o que ficou mais evidente em sua campanha, onde prometeu “limpar” o país dos “marginais vermelhos”. Recentemente, o vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, também admitiu ter tido uma discussão com assessores da vereadora Marielle Franco pouco antes de sua morte.

Os fatos mais recentes, exibidos em primeira mão pelo Jornal Nacional no dia 29 de outubro trazem novas pistas sobre os mandantes do assassinato político de Marielle e Anderson. A revelação de que um dos participantes do crime teria ido até o condomínio de Jair Bolsonaro, obtendo a partir do interfone a autorização para a entrada traz novamente à tona a possibilidade da maior autoridade política do país estar envolvida no crime. Quem apresentou essa versão foi o porteiro do condomínio, que admite que houve resposta positiva da casa de Bolsonaro a entrada do suspeito, que acabou indo à casa do vizinho Ronnie Lessa.

Continua a pergunta: Quem mandou matar Marielle e Anderson? PSOL ESTARÁ NAS RUAS COBRANDO RESPOSTAS

O PSOL não admitirá nenhuma interferência por parte de Bolsonaro e sua equipe nas investigações sobre o caso Marielle. É importante que as investigações sigam acontecendo e que os participantes da ação criminosa sejam responsabilizados. Não é legítima a movimentação do ministro Sérgio Moro quando aciona a Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República para investigarem o depoimento do porteiro que testemunhou sobre o caso.

A bancada de deputados do PSOL solicitou uma audiência extraordinária com o presidente do STF, Dias Toffoli, ainda para esta quarta-feira. O objetivo é que Bolsonaro seja investigado, já que muitas evidências corroboram com sua possível participação no crime. 

No dia 31 de outubro o PSOL está convocando manifestações em diversas cidades do país para exigir Justiça por Marielle e Anderson. Que a investigação siga sem nenhuma interferência de autoridades ou instituições.