Por Deise Nascimento

O Pronunciamento recente do prefeito de Campinas anunciando o plano de retorno às atividades de forma escalonada e setorial foi uma resposta ao setor empresarial que pressiona a manutenção de atividades comerciais e financeiras apesar da existência de uma pandemia. No documento divulgado pela prefeitura de Campinas, PLANO DE MONITORAMENTO DA PANDEMIA DE COVID-19 EM CAMPINAS E FLEXIBILIZAÇÃO DO DISTANCIAMENTO SOCIAL, Edição 1 – 27 de abril de 2020, disponível no link https://covid-19.campinas.sp.gov.br/recomendacoes-tecnicas a premissa é de que caso haja necessidade o retorno ao distanciamento social seja efetuado e até mesmo bloqueio total de circulação. Entretanto, há uma defasagem entre dados oficiais para registro de casos de COVID 19 e situações vivenciadas na prática. Os registros em geral demoram cerca de quinze dias para constarem nos dados oficiais, portanto os ciclos propostos pelo plano de monitoramento da prefeitura de Campinas estarão condicionados a este atraso, a situação real apresentará dados inconsistentes diante da capacidade de proliferação do vírus no intervalo de quinze dias. Tais atrasos se devem ao fato de os resultados de exames não serem imediatos. Mesmo com a promessa de aquisição de testes rápidos, o número de testes mencionados no plano a serem adquiridos pelo município é bem inferior à possibilidade de contaminações pelo Corona vírus. Outro problema recorrente é a subnotificação, no Brasil, em 2019 foram 57.995 mortes por pneumonia e 44.282 por insuficiência respiratória. Nos primeiros quatro meses de 2020, os registros dão conta de  54.813 e 41.602 óbitos respectivamente. Os cartórios transcrevem para o registro de óbito o que veio na Declaração de Óbito – DO, como causa da morte. A atualização do Portal da Transparência pelos registros de óbitos lavrados pelos Cartórios de Registro Civil obedece a prazos legais. A família tem até 24h após o falecimento para registrar o óbito em Cartório que, por sua vez, tem até cinco dias para efetuar o registro de óbito, e depois até oito dias para enviar o ato feito à Central Nacional de Informações do Registro Civil (CRC Nacional), que atualiza os dados na plataforma do Portal da Transparência.

Conforme dados divulgados no PLANO DE MONITORAMENTO DA PANDEMIA DE COVID-19 EM CAMPINAS E FLEXIBILIZAÇÃO DO DISTANCIAMENTO SOCIAL, Campinas não atingiu o número de contaminações para que seja acionada a fase de “emergência”. “A incidência da COVID-19, por 1.000.000 habitantes, na região metropolitana de Campinas, na semana de 20 a 24/04/2020, segundo o número de casos reportados no boletim epidemiológico do CVE/SES-SP e utilizando a população IGBE (2010), demonstram que, exceto Morungaba e Vinhedo que apresentam uma incidência alta proporcional ao número de habitantes o que os caracterizaria como situação de Emergência, os demais municípios ainda encontram-se em situação de Alerta para a COVID-19. Campinas está em situação de Alerta (em 27/04/2020)”. A quarentena que teve início em 23 de março em Campinas, inclusive a UNICAMP paralisou atividades desde o dia 13 de março, é responsável pelo número abaixo de 50% da média nacional do coeficiente de mortalidade de Campinas, em comparação ao Brasil.

O afrouxamento da quarentena poderá elevar este coeficiente, colocando em risco a população. Uma pesquisa sobre a disseminação do novo coronavírus feita por pesquisadores da Unesp (Universidade Estadual Paulista) mostra que os casos da COVID-19 no interior paulista estão três semanas atrás dos números registrados na capital e em regiões metropolitanas como Campinas, Sorocaba e Baixada Santista. O levantamento identificou 13 municípios de médio porte que são o destino da Covid-19: Araçatuba, Araraquara, Bauru, Campinas, Marília, Piracicaba, Santos, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, São José dos Campos, Sorocaba e Votuporanga.  se por um lado a capital concentra mais da metade dos casos da COVID-19 no Estado, por outro o interior enfrenta outro tipo de problema: menos acesso a hospitais e equipamentos. De acordo com um estudo feito pela instituição, a Covid-19 vem chegando a centros regionais fora da capital paulista a partir dos principais eixos rodoviários e têm potencial para atingir localidades nos arredores em “efeito cascata”.

No Estado de São Paulo, o percentual de isolamento social foi de 48% na quarta-feira (22). A central de inteligência analisa os dados de telefonia móvel para indicar tendências de deslocamento e apontar a eficácia das medidas de isolamento social. Com isso, é possível apontar em quais regiões a adesão à quarentena é maior e em quais as campanhas de conscientização precisam ser intensificadas, inclusive com apoio das prefeituras.

Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), 67% dos brasileiros que dependem exclusivamente do SUS (Sistema Único de Saúde) são negros, além disso, eles também são a maioria que apresentam comorbidades como diabetes, tuberculose, hipertensão e doenças renais crônicas no país – fatores que aumentam o risco de desenvolver uma versão mais grave da doença.

Ainda segundo SBMFC, a maioria dos trabalhadores informais e dos serviços essenciais do país, que apresentam dificuldade em cumprir as medidas de isolamento social são negros. No início do mês de abril, a instituição divulgou um manifesto pedindo para que o Ministério da Saúde passe a divulgar:

  • Declarações de óbito por COVID-19 e notificações de Síndrome Respiratória Aguda Grave por raça/cor;
  • Declarações de óbito por COVID-19 e notificações de Síndrome Respiratória Aguda Grave com por bairros nos municípios;
  • Declarações de óbito por COVID-19 e notificações de Síndrome Respiratória Aguda Grave realizadas no sistema de saúde desagregando os serviços de saúde públicos e privados;
  • A produção, análise e divulgação de dados referentes aos casos suspeitos por COVID-19 com desagregação por raça/cor;

“À medida que o tempo passa a gente espera cada vez mais casos de negros, justamente por causa da discriminação. O coronavírus entrou no país entre as classes econômicas mais altas. O número absoluto é uma consequência desse processo. Daqui a pouco os números devem aumentar e ter mais casos nas comunidades mais vulneráveis e com menor estrutura de saneamento básico” – Marcelo Gomes, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O pico de contaminações do Corona vírus é previsto para o mês de maio, mesma data que o governo municipal lança o PLANO DE MONITORAMENTO DA PANDEMIA DE COVID-19 EM CAMPINAS E FLEXIBILIZAÇÃO DO DISTANCIAMENTO SOCIAL. Dados relevantes quanto a incerteza médica e científica sobre a imunização pós recuperação da COVID 19, inúmeros casos assintomáticos que efetuam contaminação comunitária, além de período de incubação assintomática com potencial de proliferação do vírus, mutações desconhecidas do vírus e que manifestam sintomas pouco conhecidos pela ciência e pela medicina, entre outros fatores agravantes, reforçam a defesa da manutenção da quarentena como forma eficiente de prevenção da COVID19.